A Ilusão Socialista

Sala de espera de um edifício público antigo, vazia, com cadeiras metálicas gastas alinhadas diante de um balcão de atendimento; atrás do vidro fosco surgem silhuetas indistintas, enquanto uma luz dourada lateral entra pela janela, iluminando o pó no ar e criando uma atmosfera de espera, dependência e autoridade impessoal.

Em Portugal, quando se fala de “socialismo”, a maioria das pessoas não está a falar de socialismo.

Está a falar de uma memória emocional muito específica, localizada no tempo e na cultura, moldada pelo pós-25 de Abril. Para muitos, socialismo significou “direitos”, “serviços públicos”, “proteção”, “menos injustiça”, “não deixar ninguém para trás”. Uma espécie de moral de boas intenções aplicada à política, sem grande reflexão sobre estrutura, incentivos ou consequências.

Essa ideia não nasceu de estudo. Nasceu de trauma histórico, pedagogia ideológica e repetição acrítica. É o socialismo como sensação, não como sistema.

O problema é que o socialismo real nunca foi uma atitude moral. Sempre foi uma arquitectura de poder.

Socialismo não é “o estado ajudar”. Os estados sempre “ajudaram” em todos os regimes e em todas as épocas. Socialismo é algo muito mais preciso: a substituição progressiva da ordem espontânea da sociedade por uma ordem centralmente decidida. É a ideia de que a produção, a distribuição e, inevitavelmente, as escolhas individuais devem ser subordinadas a um plano colectivo definido por uma autoridade.

Na prática, isto significa uma coisa simples: o indivíduo deixa de ser soberano sobre a sua vida económica, e o poder passa para quem controla o aparelho político e administrativo. É exactamente este o funcionamento de tudo aquilo que importa, em Portugal.

O português comum desenvolveu a tendência para imaginar o socialismo como um “capitalismo mais humano”. Os pensadores sérios sempre o definiram como o seu oposto: a erosão sistemática da propriedade privada, da responsabilidade individual e da liberdade de escolha, substituídas por decisões políticas.

Há um dado objectivo que ajuda a perceber quão profundamente esta ideia se enraizou na psique portuguesa: durante cerca de três décadas, o Partido Socialista governou Portugal na maior parte do tempo, somando aproximadamente 22 anos no poder desde meados dos anos 90.

Isto não foi um acaso histórico. Foi o reflexo de uma cultura política que associou governar a distribuir, proteger e regular, e que passou a desconfiar instintivamente de tudo o que cheirasse a autonomia individual, limitação do poder do estado ou responsabilização pessoal.

Mesmo quando os resultados foram medíocres ou francamente negativos, a reacção colectiva raramente foi questionar o modelo. Foi pedir mais intervenção, mais despesa, mais tutela. O socialismo não foi mantido no poder pelos seus resultados, mas pela sua promessa emocional.

É verdade que esse ciclo político foi recentemente quebrado. O Partido Socialista deixou de dominar eleitoralmente, destronado pelo Chega de André Ventura, uma força que capitalizou o cansaço, a frustração e a saturação do eleitorado. Mas isso não invalida o diagnóstico. Pelo contrário: confirma-o.

Porque o que caiu foi um partido. A mentalidade que o sustentou continua largamente viva.

O socialismo que muitos portugueses ainda defendem não existe. É um mito confortável, herdado e raramente examinado. O socialismo que existe é um sistema que exige coerção, concentração de poder e obediência administrativa crescente. Não por maldade, mas por lógica interna.

Nenhuma planificação sobrevive sem impor regras, limites, sanções e punições. E quanto mais falha, mais controlo exige.

O socialismo foi vendido em Portugal como libertação. Na prática, habituou gerações inteiras a depender do estado, a confundir direitos com favores e a aceitar que decisões fundamentais sobre trabalho, poupança, habitação ou futuro fossem tomadas por estruturas distantes, opacas e irresponsáveis.

Isto não é sobre esquerda ou direita. É uma questão de maturidade intelectual: perceber que boas intenções não têm o poder para anular leis económicas nem para alterar a natureza do poder.

Quem ainda confunde socialismo com bondade não está a defender justiça. Está apenas a defender um sistema que promete cuidar de todos, desde que todos obedeçam.