Cristianismo Desarmado

**Alt text:** Altar de igreja antigo em pedra escura, parcialmente vazio, iluminado por luz dourada lateral que atravessa o espaço, criando sombras longas e atmosfera austera; símbolos litúrgicos discretos emergem da penumbra, sugerindo fé silenciosa, memória e tensão entre sacralidade e abandono.

Há algo de profundamente degradado no Cristianismo tal como hoje é apresentado pelas suas elites institucionais.

Foi reduzido a um humanitarismo vago, sentimental e politicamente dócil. Um Cristianismo de frases bonitas e costas voltadas à realidade. Fala obsessivamente de “acolher”, mas evita sistematicamente a palavra proteger. Celebra a vulnerabilidade como virtude e trata a defesa como pecado. Não é fé. É anestesia moral.

Os nossos antepassados não reconheceririam isto como Cristianismo. Pessoas que viveram sob ameaça real, que viram igrejas queimadas, comunidades massacradas e populações submetidas, sabiam algo elementar: o amor sem verdade não salva, e a misericórdia sem justiça não é virtude, é apenas cumplicidade. Sabiam distinguir hóspede de invasor, caridade pessoal de rendição colectiva, e paz de submissão.

O problema não é apenas a completa frouxidão. É também a assimetria moral deliberada. Só uma civilização é chamada a abdicar, a perdoar unilateralmente, a dissolver fronteiras e a oferecer a outra face. Só aos cristãos é exigido que confundam amor com suicídio. A outra parte não é chamada a renunciar a nada, nem à sua identidade, nem à sua expansão, nem à sua lógica de poder. Isto não é universalismo cristão. É desarmamento moral selectivo.

Pior ainda, isto não é novo. É um padrão histórico repetido. Sempre que as comunidades cristãs deslegitimaram a sua própria defesa em nome de uma virtude abstracta, o resultado foi previsível: perda de território, perseguição, submissão e, por fim, silêncio. Igrejas destruídas ou transformadas, populações substituídas, memória apagada. Não por “falta de amor”, mas por recusa em reconhecer o conflito enquanto ainda havia tempo.

Cristo nunca pregou a dissolução das comunidades nem a abdicação da verdade para evitar confronto. Pregou um amor que inclui dizer não. Um amor que protege os seus antes de se oferecer a quem os ameaça. Um amor enraizado no real, não em fantasias piedosas.

E o próprio Evangelho é claro quando se recusa a reduzir a fé a pacifismo ingénuo. No Evangelho segundo São Lucas lê-se:

“Mas agora, quem tiver bolsa, tome-a; e também o alforge; e quem não tiver espada, venda a sua capa e compre uma.”

“Senhor, eis aqui duas espadas.”

“Basta.”

Durante séculos, o Cristianismo compreendeu isto sem histeria nem culpa: há uma espada espiritual, a verdade e a consciência; e há uma espada temporal, a defesa da ordem e da comunidade. Separar estas duas esferas foi sempre parte da tradição cristã. Negar a segunda em nome da primeira não é santidade. É irresponsabilidade travestida de virtude.

O que torna a situação actual ainda mais grave é a traição interna. Líderes religiosos, teólogos e mediadores “morais” que reinterpretam a doutrina para neutralizar qualquer instinto de autopreservação, enquanto exigem sacrifício apenas aos seus. Condenam a defesa, mas desculpam a agressão. Pedem martírio unilateral e chamam-lhe amor.

Quando o Cristianismo abdica da memória histórica, recusa nomear o adversário e transforma a sua própria sobrevivência num tabu moral, deixa de ser um farol. Passa a ser uma ferramenta usada contra os seus próprios fiéis.

Isto não é Cristianismo fiel às suas raízes. É a sua caricatura moderna, domesticada, desarmada e incapaz de amar, porque não é capaz de defender a verdade.